Quem?

terça-feira, 11 de outubro de 2016

 Hoje li um texto do escritor Gael Rodrigues que me fez chorar como eu não chorava há anos. Aquelas lágrimas que vêm lá de dentro, tão de dentro que nem parece vir de você. No texto Gael conta como esconder sua sexualidade quando criança o tortura ainda nos dias de hoje, como ele se forçou a cada detalhe a ser quem não era pra não ser descoberto. E seu desespero quando deixava algo passar despercebido por seu "alter-ego". 
 Eu não tive que esconder minha sexualidade quando criança, mas tive que esconder quem eu era. Porque quem eu era não era bom o bastante pra sociedade, nem para as pessoas ao meu redor. Minhas roupas, meu jeito, meus gostos, tudo indicava a "Maria Sapatão" que eu me tornaria, e isso não era certo. Mesmo que eu fosse, mesmo que não, do que importa? Ninguém entendia. Muito menos eu, uma criança perdida no meio dessa história toda. 
 Quando eu vi, já não jogava mais futebol, pintava minhas unhas, usava roupas esquisitas e já não sabia mais quem eu era. Até hoje não sei. Mas tudo é reflexo do que eu vivi naquela época. Não conseguir me sentir adequada, sempre achar que não sou boa o suficiente, não pertencer a nenhum lugar, não ter amigos. Eu já não sei se o que gosto é porque gosto mesmo ou porque na minha cabeça eu deveria gostar. E há dias que isso é desesperador e me consome. 
 Não sei se um dia vou acabar com essa crise de identidade, não sei. Ninguém entende o quanto isso pode afetar alguém, acham que é só uma ideia louca da minha cabeça. Eles não sabem de nada. E enquanto isso eu continuo não sabendo quem eu sou. Pelo menos, com os textos como o do Gael, eu sei que há tantas pessoas que se escondem, que fogem e não se encontram como eu. Empatia nessas horas cai bem.