Não me venha falar sobre hipocrisia

sábado, 27 de junho de 2015

  Nesta sexta-feira o mundo virtual, em especial o facebook, se mobilizou com a vitória do casamento igualitário nos EUA. No meio de tantas fotos coloridas, discursos de ódio se propagaram, hipocrisia é o que não faltava, desde pessoas que são contra o casamento gay como pessoas que acham que uma causa é mais importante que a outra. A fome foi o principal argumento. 
  Tudo bem você não ser a favor dos direitos iguais, cada um pensa o que quer. Mas querer comparar uma lei que legaliza a união entre pessoas do mesmo sexo com a fome mundial é hipocrisia pura. Até porque de todas as pessoas do meu facebook apenas uma que eu conheço realmente faz algo para ajudar pessoas que passam necessidade, e até ela estava com a foto colorida ontem.
  Não. Eu não colori minha foto do facebook. Sim. Eu apoio os direitos iguais para os homossexuais. Por que não colori a foto? Simples. Durante os últimos meses eu tenho estado em choque devido às diversas mortes que têm ocorrido, incluindo as dos EUA. Comemorar uma vitória dos direitos humanos enquanto outro está sendo completamente ignorado me parece um tanto hipócrita. 
  Se você acha que a fome é a mais importante que o casamento gay, faça algo a respeito ao invés de compartilhar fotos no facebook. Se você é contra o casamento gay, cada um sabe o que é melhor pra si, não pro outro. Se você não acha que eu deva comemorar a aprovação do casamento igualitário no país que influência o mundo inteiro, problema seu. 

"Vai de menino ou de menina?"

segunda-feira, 22 de junho de 2015

  Desde que eu me entendo por gente me vejo em cima de um muro. Sempre preferi azul à rosa, sempre preferi bermudas a saias. Mas isso era só meu modo de vestir. Não muda quem eu sou, e mesmo assim as pessoas não são capazes de entender isso. Preferia jogar futebol a ficar de bobeira com as outras meninas. Mas ninguém entendia, eu tinha que jogar queimado, isso sim era esporte de menina. 
  Com sete anos recusei ser daminha de um casamento porque não queria usar um vestido enorme branco e vinho. Eu sabia que decepcionaria muitas pessoas, mas não usaria aquele vestido por nada nesse mundo. Então fui ao casamento de calça bege, blusa de botão branca, bota e ainda uma boina, feliz da vida já que eu não teria que usar aquela coisa que me apavorava.
  No meu aniversário de sete anos eu pensava que deveria ser um pouco mais feminina como a maioria das minhas amigas, nisso optei pelo tema "Meninas". Sim, eram meninas, e tudo era muito rosa. Usei uma roupa ridícula e me senti uma grande mentira. Acho que todos sabiam muito bem quem eu realmente era, e que aquilo não era tão eu quanto deveria ser. 
  No ano seguinte, o tema foi Flintstones, aquele desenho da idade da pedra, e dessa vez eu me vesti como eu era de verdade. Roupa preta e trancinhas muito loucas. Acredito que ter usado a blusa da Pitty tenha me dado um pouco mais de conforto. Ela era a única mulher que eu conhecia que tinha uma banda pesada pra mim na época e nem por isso ela deixava de ser mulher. 
  Foi só depois de alguns anos que eu vi que eu poderia usar saia sem me sentir oprimida e usar blusas largas para desaparecer na multidão. Eu poderia ser um meio-termo. Eu poderia usar o que quisesse. Com os anos eu comecei a usar vestidos, a deixar o cabelo solto e pintar as unhas. A melhor parte de todas é poder ser quem eu sou de verdade. Se eu quiser usar uma bermuda masculina, eu vou usar. Se eu quiser usar uma saia florida, eu vou usar. E ninguém tem nada a ver com isso. 
  Nesta semana minha turma fará o dia temático da troca, em que as meninas se vestem de meninos e vice-versa. Mais de duas pessoas me perguntaram: "Você vai de menino ou de menina?". É claro que eu vou de menino, porque, mesmo usando roupas masculinas, eu ainda sou uma garota! E no mesmo dia, mais tarde, uma reportagem da Pitty saiu na Rolling Stone falando sobre sua masculinização. Coincidência? Não, senhor. Meu sistema ninguém reinstala.