Sobrevivendo

quarta-feira, 28 de maio de 2014

   Ás vezes ficar alheia é a melhor coisa que faço. Fingir que não vi, que não sei, que não sinto. Não é porque quero, mas por questão de sobrevivência. Não dá pra viver no meio desse ninho de cobras, de pensamentos, e querer combater tudo, sentir, expor.
   É contraditório, pois eu quero ser livre. Livre de pensamentos obscuros, livre de sentimentos estúpidos, livre de tudo. Mas eu também preciso sobreviver. Se não, pra quê tudo isso? "Save it for yourself"* eles disseram.
   Por enquanto sigo alheia a tudo, à mim. Cada vez mais submissa ao meio, cada vez buscando por outros caminhos para sobreviver, sempre cada vez mais Amélia. Até que esse ciclo acabe, e então quem sabe eu serei livre de verdade.


*"Save it for yourself" expressão em inglês que significa Guarde para si mesmo.

De Quem É a Culpa?

sexta-feira, 23 de maio de 2014

  Com poucos anos ela já se achava dona do próprio nariz. Ia de lá, pra cá, ninguém se importava. Ela foi esquecida pelos pais e sempre fez o que quis, já se achando mulher. Não tinha nem doze anos quando tudo mudou. Ela conheceu um rapaz. Ele tinha dezessete e jurava o coração. Era seu primeiro amor e ela nunca recebeu nenhuma orientação.
  Largada nesse mundo, sem alguém pra guiar, a menina de doze anos se perdeu. Loucamente apaixonada, foi deixada pelo tal amado depois de dizer o que aconteceu. Ela havia engravidado, mas nem oração ela tinha aprendido. Seus pais só depois de oito meses descobriram. A menina foi julgada por Deus e o mundo. Mas ninguém faz filho sozinho, ninguém deveria deixar filho sozinho.
  E então pergunto: De quem é a culpa? Culparia a mídia, que influência as crianças, que propaga vulgaridades, além de alienar? Culparia a família, que largou a criança e nunca fez questão de cuidar? Culparia o menino, que engravidou a menina e depois a deixou pra lá? Culparia a menina, que se permitiu passar por isso e nunca imaginou no que iria dar? Culparia a mim mesma, que escrevo a história dessa menina ao invés de fazer algo para mudar? Culparia você, que julgou a menina no lugar de fazer algo para que a história não se repita.


     vi na TV 

Ensaio Sobre Estereótipos

segunda-feira, 19 de maio de 2014

   Ao escrever uma redação hoje na aula eu vi o tamanho da hipocrisia da minha turma. O tema? Estereótipos, narcisismo. O Objetivo era dissertar sobre a sociedade que vive em busca de um corpo perfeito, que não se aceita do jeito que é, repleto de críticas e insatisfações.
   Esse assunto acaba nos submetendo aos anabolizantes, às cirurgias plásticas, à academia obsessiva. Todos sabemos do mal que essas coisas fazem, porém a maioria das pessoas persistem em optar por esses caminhos, mesmo que daqui há alguns anos todo o esforço tenha sido em vão.
   O momento de beleza, do corpo perfeito, não, nunca vai ser o suficiente, essa vontade vira uma bola de neve que cresce gradativamente. E até hoje eu não sei o por quê, se é para agradar o outro ou à si mesmo.
   Onde está o amor próprio? Por que não ser saudável e só? Não precisa ter uma bunda grande, peitos fartos, o cabelo igual ao da modelo tal. Você só precisa ser você. Não faça cirurgias para você ficar bonito(a). Aliás, o que é bonito? É o que estampa as capas de revista e os sites de fofoca? Bonito mesmo é ser você mesmo.

Quase Alice

domingo, 18 de maio de 2014

  Estava tudo bem, tudo ótimo para falar a verdade. Eu era feliz, eu era. A ignorância era minha aliada, eu não sabia de nada que acontecia, não via, não ouvia, não entendia. E eu era feliz, é, eu era. Eu manipulava e fazia tudo do meu jeito, mas nessa fase isso é comum. O bonzinho sempre ganhava no final.
  Então as brincadeiras acabaram, tudo desabou. O mundo de fantasias em que vivia, foi destruído por uma bruxa má chamada Adolescência. De repente brincar já não tinha graça, eu via tudo, ouvia tudo, entendia tudo, e isso me deixou cada vez pior. 
  E no meio de tudo isso eu não sabia quem eu era, eu me sentia grande quando eu era pequena, e me senti pequena quando grande. Quase Alice, mudando a cada parágrafo, achando o estranho normal e o normal estranho, conhecendo um mundo novo, me conhecendo mesmo achando que eu já sabia de tudo. 
 

Não é tão fácil escrever

quinta-feira, 15 de maio de 2014

 Não é tão fácil escrever, pelo menos não pra mim. Meus problemas são tão fúteis. Quando eu acho que está tudo errado eu vejo as tragédias ao meu redor, me sinto tão estúpida por reclamar de uma realidade monótona. Tão criança, achando que posso ser alguém só com as minhas palavras.
 Não passo de uma menina de dezesseis querendo falar bonito, fazer sentido. Eu posso ter lido Pessoa, Lispector e Veríssimo. Eu me finjo de culta, isso, eu só finjo. Não entendo nada, mal me conheço. É engraçado pensar que eu não me encontro ao me olhar no espelho. E dessa pequena bobeira eu acho que posso fazer um poema bonito.
  Não é tão fácil escrever. Queria ter um pouquinho desse dom, poder transformar tudo num soneto, mas não consigo fazer nem o primeiro quarteto.

Quinze Por Quinze (15/15)

quarta-feira, 7 de maio de 2014

  Estiquei o braço, já cansada, sem forças. O dia foi longo, foram cerca de quinze horas na rua, sem ir para casa, sem parar para respirar. Entrei naquela enorme máquina de metal, ansiosa para voltar para casa.
  Seria difícil escolher entre tantos vazios, se não fosse por um detalhe. O vento ou o ar, tanto faz. Sem a janela eu me sinto sufocada, como se fossem deixar meu pulmão vazio e eu nunca mais seria capaz de respirar de novo.
   Escolhi um lugar mais alto, que tinha mais janelas possíveis. Escancarei-as. Então a velocidade aumentou. Mesmo tendo que me concentrar para fazer um pouco daquele oxigênio entrar no meu pulmão, fechei os olhos e aproveitei cada átomo que me enfrentava com uma leveza indescritível.
   Pode ser que ninguém me entenda, mas aqueles quinze minutos de viagem valeram por todos as quinze horas de tarefas. Ouvir uma música tão fresca quanto "Temporal", que te remete à sensações tão agradáveis, enquanto o ar invade toda a imensidão do teu próprio vazio dos últimos dias, são coisas que me lavam a alma.
   Então caro leitor, que assim como eu, desfruta do transporte público, sempre que puder escolher um lugar, escolha próximo a uma janela. E se sentir-se vazio, feche os olhos, e deixe com que o vento encontre seu rosto. Relaxe e sinta todo o ar que te invade.




   (Clicando na palavra "Temporal" abrirá a música pelo youtube)