O luto

sexta-feira, 21 de julho de 2017

"Chester Bennington, vocalista da banda Linkin Park, foi encontrado morto nesta quinta-feira (20) em sua casa perto de Los Angeles, na Califórnia (EUA)" E com essa morte uma enxurrada de postagens no facebook. Mais um grande artista que se vai, de fato. Mas não, eu não vou compartilhar sua música hoje. Eu não vou comentar em sua foto. Não vou. 
Semana passada uma tia muito querida morreu. Eu não consegui ir no seu velório, estava visitando um outro tio que hoje tem 91 anos e câncer nos ossos. Eu já perdi duas pessoas importantes na minha vida. Três, agora com essa tia. A morte dói. Te tira um pedaço de onde você nem sabia que exista. E não é o facebook que vai melhorar isso.
Eu poderia passar o meu tempo livre remoendo essas mágoas. Viver de publicação com difuntos queridos. Mas  eu estou aqui, viva. E qual é o jeito mais pleno de estar de luto se não o de viver? Só eu sei o que aquela pessoa significa pra mim, seja ela um artista ou um familiar. E não há mensagem virtual que expresse isso. 

É mais difícil do que parece

quinta-feira, 25 de maio de 2017

♦︎ Hoje eu acordei e queria vomitar. Não vomitei. Depois de algumas tarefas senti meus dedos dormentes, nada de novo. Pelo menos não foi como das outras vezes que com as mão trêmulas eu mal conseguia segurar um garfo. Sem mencionar todas as dores de cabeça que tive essa semana. Fechar os olhos, tapar os ouvidos. Dormir à tarde parece um luxo, mas é necessidade. Não tenho pra onde fugir. ♦︎ Eu me inscrevi num programa de ajuda com psicólogos. A lista de espera é grande, meu problema parece pequeno. Todos os privilégios que guardo no bolso, mas se comento é como se fosse uma boba por estar sofrendo assim. A verdade é que a vergonha é a maior de todas as doenças. Só de pensar meus olhos enchem de lágrimas. E se me descobrirem? "Que farsa!". ♦︎ “Um dia de cada vez”, mas sinto falta dos dias em que a falta de atenção era minha única preocupação. E de todas as tardes que desperdicei, mesmo deixando a culpa me consumir. Mas ninguém vê quando eu preciso de ajuda. O mundo está em pedaços. Quem sou eu na fila do pão de uma padaria qualquer? ♦︎

O Homem Branco

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Sujos de lama
os homens brancos passam
e riem do velhos
que rolam no caminho do retrocesso

Sem pena 
cortam seus braços e pernas

E ninguém viu 
o homem branco que riu 
da desgraça da humanidade
que existia no choro do pivete

Ninguém se importou
quando o homem branco sentou na cadeira
e definiu o padrão da família brasileira

Ninguém reclamou
quando o homem branco
tomando sorvete 
decidiu decidir

Quem?

terça-feira, 11 de outubro de 2016

 Hoje li um texto do escritor Gael Rodrigues que me fez chorar como eu não chorava há anos. Aquelas lágrimas que vêm lá de dentro, tão de dentro que nem parece vir de você. No texto Gael conta como esconder sua sexualidade quando criança o tortura ainda nos dias de hoje, como ele se forçou a cada detalhe a ser quem não era pra não ser descoberto. E seu desespero quando deixava algo passar despercebido por seu "alter-ego". 
 Eu não tive que esconder minha sexualidade quando criança, mas tive que esconder quem eu era. Porque quem eu era não era bom o bastante pra sociedade, nem para as pessoas ao meu redor. Minhas roupas, meu jeito, meus gostos, tudo indicava a "Maria Sapatão" que eu me tornaria, e isso não era certo. Mesmo que eu fosse, mesmo que não, do que importa? Ninguém entendia. Muito menos eu, uma criança perdida no meio dessa história toda. 
 Quando eu vi, já não jogava mais futebol, pintava minhas unhas, usava roupas esquisitas e já não sabia mais quem eu era. Até hoje não sei. Mas tudo é reflexo do que eu vivi naquela época. Não conseguir me sentir adequada, sempre achar que não sou boa o suficiente, não pertencer a nenhum lugar, não ter amigos. Eu já não sei se o que gosto é porque gosto mesmo ou porque na minha cabeça eu deveria gostar. E há dias que isso é desesperador e me consome. 
 Não sei se um dia vou acabar com essa crise de identidade, não sei. Ninguém entende o quanto isso pode afetar alguém, acham que é só uma ideia louca da minha cabeça. Eles não sabem de nada. E enquanto isso eu continuo não sabendo quem eu sou. Pelo menos, com os textos como o do Gael, eu sei que há tantas pessoas que se escondem, que fogem e não se encontram como eu. Empatia nessas horas cai bem.

terça-feira, 1 de março de 2016

Eu não consigo mais escrever.
Na verdade, eu não consigo fazer nada.
Toda aquela euforia
e todos os planos
foram deixados de lado
num ato de obediência,
quase como se não houvesse outra opção.

Entre uma noite e outra
ninguém mais vê
que através disso tudo
há uma pessoa.

Eu esperava por mais,
como quem tem certeza de tudo.

Diabetes.txt

Eu não te amo

sábado, 16 de janeiro de 2016

 Outro dia eu li uma dessas coisas que se encontra na internet, o título era "A diferença entre gostar, se apaixonar e amar". Um texto longo que dizia que quando gostamos sentimos aquele frio na barriga, que apaixonados nos perdemos no sentimento e ficamos cegos, e amar é fazer da pessoa seu passado, presente e futuro. Então eu descobri que não te amo. Ou pelo menos não só isso. 
 Vai além dessas definições bobas, das diferenças citadas. Mesmo depois de tanto tempo eu ainda sinto aquele frio na barriga antes do encontro, ainda faço planos na segunda-feira e ainda reparo teus defeitos que eu não conhecia. Mas, aliás, quem disse que gostar não pode ser pra sempre? É um sentimento inocente e medroso. 
  E eu também estou apaixonada, ainda faço coisas sem pensar, só pelo impulso do sentimento. Ainda fico cega quando se trata de você. Ainda me entrego sem pensar duas vezes só pela alegria que encontro ao te ter. Ainda fico sem graça quando me olha profundamente e ainda sinto coisas surpreendentes com beijos breves.
  E ainda sim te encontro nos meus últimos três anos, ainda te tenho no presente e te espero no futuro. Cheio de planos e ideias de coisas tão simples que mesmo sendo apenas pensamentos já me tornam feliz. Mesmo que eu tenha que trabalhar meus defeitos, evitar os mesmos erros e ainda sim qualquer esforço é válido.
  

Eu sei

domingo, 27 de setembro de 2015

  Hoje eu resolvi olhar aquela playlist que você anda fazendo pra mim e pra minha surpresa lá estava aquela banda que eu te falei que eu estava apaixonada. Eu sei. É muito pop-alternativo pra você, mas mesmo assim você se deu ao trabalho de ouvir e adicioná-la na minha playlist. E quando eu vi, eu tive vontade de chorar. Bobo, eu sei. 
  Poucas pessoas entendem o que rola entre a gente e como conseguimos fazer chegar até aqui, realmente nem eu sei. E nem quero saber, porque descobrir o segredo faria com que tudo isso se tornasse sem graça. Eu vejo tantos anúncios de namoro pela internet, mas tenho certeza que nenhum é como o nosso, muito menos tão verdadeiro quanto. 
  Você me conhece bem, sabe que sou muito apegada a tudo, principalmente aos detalhes. Como  quando você fez um daqueles seus desenhos da gente ou quando você me emprestou aquela blusa pra me proteger da chuva, aquela blusa xadrez que passou a ser minha logo em seguida. Eu gosto de lembrar dessas coisas, gosto dos detalhes de tudo que passamos, faz tudo se tornar peculiar e não apenas mais um casal do facebook. 
   Eu sou babaca na maior parte do tempo, eu sei. Ninguém precisa saber que por trás da cara feia existe um coração cheio de apegos. E eu não sei o que seria de mim sem todos os apegos seus, sem todas as cartas guardadas e as rasgadas, sem todos os desenhos espalhados por aí, sem todas as músicas das infinitas listas compartilhadas. Eu sei, não sou ninguém sem você, nem sem os milhões de detalhes que guardei e que acabei esquecendo. 

Não me venha falar sobre hipocrisia

sábado, 27 de junho de 2015

  Nesta sexta-feira o mundo virtual, em especial o facebook, se mobilizou com a vitória do casamento igualitário nos EUA. No meio de tantas fotos coloridas, discursos de ódio se propagaram, hipocrisia é o que não faltava, desde pessoas que são contra o casamento gay como pessoas que acham que uma causa é mais importante que a outra. A fome foi o principal argumento. 
  Tudo bem você não ser a favor dos direitos iguais, cada um pensa o que quer. Mas querer comparar uma lei que legaliza a união entre pessoas do mesmo sexo com a fome mundial é hipocrisia pura. Até porque de todas as pessoas do meu facebook apenas uma que eu conheço realmente faz algo para ajudar pessoas que passam necessidade, e até ela estava com a foto colorida ontem.
  Não. Eu não colori minha foto do facebook. Sim. Eu apoio os direitos iguais para os homossexuais. Por que não colori a foto? Simples. Durante os últimos meses eu tenho estado em choque devido às diversas mortes que têm ocorrido, incluindo as dos EUA. Comemorar uma vitória dos direitos humanos enquanto outro está sendo completamente ignorado me parece um tanto hipócrita. 
  Se você acha que a fome é a mais importante que o casamento gay, faça algo a respeito ao invés de compartilhar fotos no facebook. Se você é contra o casamento gay, cada um sabe o que é melhor pra si, não pro outro. Se você não acha que eu deva comemorar a aprovação do casamento igualitário no país que influência o mundo inteiro, problema seu. 

"Vai de menino ou de menina?"

segunda-feira, 22 de junho de 2015

  Desde que eu me entendo por gente me vejo em cima de um muro. Sempre preferi azul à rosa, sempre preferi bermudas a saias. Mas isso era só meu modo de vestir. Não muda quem eu sou, e mesmo assim as pessoas não são capazes de entender isso. Preferia jogar futebol a ficar de bobeira com as outras meninas. Mas ninguém entendia, eu tinha que jogar queimado, isso sim era esporte de menina. 
  Com sete anos recusei ser daminha de um casamento porque não queria usar um vestido enorme branco e vinho. Eu sabia que decepcionaria muitas pessoas, mas não usaria aquele vestido por nada nesse mundo. Então fui ao casamento de calça bege, blusa de botão branca, bota e ainda uma boina, feliz da vida já que eu não teria que usar aquela coisa que me apavorava.
  No meu aniversário de sete anos eu pensava que deveria ser um pouco mais feminina como a maioria das minhas amigas, nisso optei pelo tema "Meninas". Sim, eram meninas, e tudo era muito rosa. Usei uma roupa ridícula e me senti uma grande mentira. Acho que todos sabiam muito bem quem eu realmente era, e que aquilo não era tão eu quanto deveria ser. 
  No ano seguinte, o tema foi Flintstones, aquele desenho da idade da pedra, e dessa vez eu me vesti como eu era de verdade. Roupa preta e trancinhas muito loucas. Acredito que ter usado a blusa da Pitty tenha me dado um pouco mais de conforto. Ela era a única mulher que eu conhecia que tinha uma banda pesada pra mim na época e nem por isso ela deixava de ser mulher. 
  Foi só depois de alguns anos que eu vi que eu poderia usar saia sem me sentir oprimida e usar blusas largas para desaparecer na multidão. Eu poderia ser um meio-termo. Eu poderia usar o que quisesse. Com os anos eu comecei a usar vestidos, a deixar o cabelo solto e pintar as unhas. A melhor parte de todas é poder ser quem eu sou de verdade. Se eu quiser usar uma bermuda masculina, eu vou usar. Se eu quiser usar uma saia florida, eu vou usar. E ninguém tem nada a ver com isso. 
  Nesta semana minha turma fará o dia temático da troca, em que as meninas se vestem de meninos e vice-versa. Mais de duas pessoas me perguntaram: "Você vai de menino ou de menina?". É claro que eu vou de menino, porque, mesmo usando roupas masculinas, eu ainda sou uma garota! E no mesmo dia, mais tarde, uma reportagem da Pitty saiu na Rolling Stone falando sobre sua masculinização. Coincidência? Não, senhor. Meu sistema ninguém reinstala.